O cheiro da oficina: sândalo, frangipani e seiva fresca
Há uma coisa que nenhuma fotografia consegue mostrar. Quando entrámos pela primeira vez numa das oficinas com que trabalhamos, o que nos atingiu não foi o que víamos mas o que cheirámos. Madeira recém-trabalhada, óleo de flor, qualquer coisa verde e húmida que não sabíamos bem nomear. Com o tempo percebemos que esse cheiro não é acidente: é a marca de um lugar onde as coisas se fazem devagar e com o que a terra oferece.
Sândalo: uma madeira que fala antes de ser vista
O sândalo está na ilha há séculos. Os artesãos usam-no em peças talhadas, em incenso, em óleos que se misturam com outros materiais para os proteger ou simplesmente para lhes dar presença. Não é preciso que uma peça seja de sândalo puro para que carregue o seu rasto: basta que a oficina cheire assim durante anos para que algo fique.
Quando nos perguntam por que razão certas peças de madeira têm um carácter tão diferente de outras que parecem semelhantes, a resposta mais honesta é muitas vezes esta: o ambiente onde foram feitas. O ar de uma oficina familiar em Bali não se engarrafa, mas sente-se.
Frangipani: a flor que impregna tudo
O frangipani cresce em quase todos os pátios de Bali. Floresce sem pedir nada e o seu cheiro é tão constante que os próprios artesãos deixam de o notar, tal como nós deixamos de cheirar a nossa própria casa. Mas para quem chega de fora, é inconfundível. Doce, ligeiramente cremoso, com qualquer coisa que lembra baunilha sem o ser.
Esse cheiro mistura-se com o do rattan molhado, com a fibra vegetal recém-cortada, com a resina da madeira. Não é um perfume desenhado: é o que acontece quando se trabalha com materiais naturais num clima quente e húmido. As varas de erva seca que usamos em algumas peças ainda guardam algo disso quando as desembalamos cá. Nem sempre, mas às vezes.
A seiva fresca e o que nos ensina sobre o tempo
Há um cheiro que demorámos mais a identificar: algo vegetal, quase amargo, que aparece quando os artesãos trabalham certos materiais recém-colhidos. É a seiva. O rattan verde, o bambu cortado nessa mesma semana, a fibra do jacinto-de-água antes de secar de vez. Esse cheiro diz-nos que o material é fresco, que não está há meses num armazém.
Diz-nos também que é preciso esperar. Um material recém-cortado precisa do seu tempo de secagem antes de poder ser bem trabalhado. Os artesãos sabem-no e não apressam. Nós também não. É um dos pontos onde aprendemos a não fazer pressão: uma peça feita com material que não secou bem pode abrir, deformar-se, perder a forma que tinha quando a vimos na oficina. Por isso esperamos.

O que chega cá e o que fica
Quando abrimos um carregamento, há um momento breve em que o cheiro da oficina ainda está presente. Dura pouco: a humidade muda, o ar aqui é diferente, as peças adaptam-se. Mas nesse momento lembramo-nos de onde vimos e porquê fazemos isto.
Uma taça de madeira com acabamento em madrepérola não cheira a sândalo quando chega à tua casa, claro. Mas foi feita num lugar que cheira assim. Isso não é publicidade: é simplesmente o que acontece quando as coisas são feitas à mão, num sítio concreto, por pessoas que passaram a vida inteira a fazê-lo. Parece-nos importante que saibas.
Por que não negociamos o preço para baixo
Este é um bom momento para falar de algo que nos perguntam de vez em quando. Quando compramos aos artesãos, não tentamos baixar o preço. Não por ingenuidade, mas porque percebemos o que está por trás: o tempo de secagem, o trabalho manual, os materiais frescos, a tradição que passa de geração em geração. Tudo isso tem um custo real.
Um ramo decorativo talhado à mão não sai de uma máquina nem de um armazém de importação em massa. Sai de uma oficina que cheira a sândalo e a frangipani, onde alguém decidiu há muito tempo que as coisas se fazem assim e não de outra maneira. Pagar bem por isso parece-nos o mínimo. E acreditamos que a ti também.
Obrigado por teres lido até ao fim. Se tens curiosidade pelas peças que mencionámos, encontras-as na nossa loja em A nossa viagem. Até à próxima.


