Teca recuperada: madeira com vida anterior

Quando abrimos um carregamento e tiramos uma peça de teca recuperada, a primeira coisa que fazemos é olhar com atenção. Não para procurar falhas, mas para perceber o que a madeira tem para dizer. Um buraco aqui, uma mancha escura ali, uma fissura fina que acompanha o veio. Tudo isso já lá estava antes de nós chegarmos. E é exatamente isso que nos atrai.
De onde vem esta madeira
A teca com que trabalhamos em Bali não vem de uma árvore recém-abatida. Vem de sítios que já cumpriram a sua função: traves de casas antigas, tábuas de embarcações, estruturas de edifícios que se demolem ou se renovam. Em Bali e noutras ilhas da Indonésia existe uma longa tradição de recuperar essa madeira antes de ela acabar no fogo ou no lixo.
Os artesãos com quem trabalhamos recolhem-na, limpam-na e examinam cada peça. Algumas são descartadas porque a madeira está demasiado comprometida por dentro. As que passam esse primeiro crivo tornam-se o ponto de partida de algo novo. Não como matéria-prima anónima, mas como madeira com história conhecida.
O que contam os buracos
Há um tipo de marca que gera sempre conversa: os buracos pequenos e redondos que aparecem na superfície. Muitos clientes perguntam-nos se isso é um problema. Não é. São os vestígios de pequenos insetos que viveram na madeira há muito tempo, quando ela ainda fazia parte de uma trave ou do casco de um barco. O artesão verifica que não há atividade recente e que a estrutura interior está sã. Se estiver bem, esses buracos ficam.
O mesmo acontece com as variações de cor. A teca envelhece de forma irregular consoante a luz que recebeu, a humidade do ambiente ou o verniz que alguém lhe aplicou há décadas. Isso produz peças com tons que vão do castanho dourado ao cinzento prateado, por vezes na mesma tábua. Nós não corrigimos isso. Parece-nos a opção mais honesta.
Por que não baixamos o preço da teca
Por vezes dizem-nos que a teca recuperada devia ser mais barata por já ter sido usada. Percebemos a lógica, mas não a partilhamos. Selecionar, transportar, limpar e trabalhar esta madeira demora mais do que fazer o mesmo com madeira nova. Os artesãos precisam de conhecer bem o material para saber o que serve e o que não serve. Esse critério tem um valor que não vamos negociar.
Também não queremos que o preço baixo seja o argumento de venda. Se alguém compra uma peça de teca recuperada só porque é barata, provavelmente não vai gostar tanto dela quando vir as marcas. Preferimos que quem a compra já saiba o que vem aí: uma peça imperfeita, singular, que não vai encontrar igual em lado nenhum.
O tempo de secagem, esse inimigo paciente
Um dos momentos mais difíceis do nosso trabalho é esperar. A teca recuperada costuma ter níveis de humidade muito diferentes consoante a sua origem. Antes de ser trabalhada, é preciso deixá-la estabilizar, e isso demora semanas. Se esse passo for saltado, a madeira mexe-se depois do acabamento: abre, torce, perde a forma.
Já tivemos carregamentos em que algumas peças chegaram com mais humidade do esperado e foi preciso parar tudo. Não é fácil dizer isso a alguém que está à espera há tempo. Mas é o que tem de ser feito. A madeira não percebe de prazos de entrega, e nós já aprendemos a não lutar contra isso.
Como reconhecer uma boa peça
Quando nos perguntam como saber se uma peça de teca recuperada é boa, dizemos sempre o mesmo: olha para o veio. Na teca de qualidade, as linhas da madeira são fechadas e regulares, mesmo que a cor varie. Um veio muito aberto ou irregular pode indicar que a árvore cresceu depressa demais, o que torna a madeira menos densa e menos resistente.
Depois há o toque. A teca tem um ligeiro óleo natural que a torna suave ao passar a mão, mesmo sem tratamento. Isso não desaparece com os anos. Se uma peça o tiver, é bom sinal. Se estiver completamente seca e porosa ao toque, vale a pena olhar com mais cuidado. São pequenas coisas que se aprendem com o tempo, viagem a viagem.
Se quiseres ver as peças de teca que temos agora, podes passar pela loja quando quiseres. E se tens curiosidade sobre como chegamos a encontrar tudo isto, em Our Journey contamos um pouco mais sobre o caminho desde Bali até aqui.