Bambu: cinco anos até estar pronto

Há materiais que chegam às nossas mãos e parecem sempre ter estado ali. O bambu é um deles. Quando chegamos a Bali e vemos os caules a secar num canto do espaço de trabalho, é fácil não pensar em tudo o que aconteceu antes. Mas por detrás de cada peça há anos de crescimento, um processo de tratamento que não se pode apressar, e um conhecimento que as famílias com quem trabalhamos foram acumulando ao longo de gerações. Esta semana queremos falar-te um pouco mais sobre este material: como cresce, como se prepara e onde o encontras no que fazemos.
Uma planta que se renova a si mesma
O bambu não é uma árvore. É uma gramínea, da mesma família do trigo ou do arroz, mas com um porte completamente diferente. Em Bali cresce em encostas, margens de rios e terrenos que não servem para outros cultivos. Um caule pode atingir a maturidade em cerca de cinco anos, o que no mundo dos materiais de construção é um tempo muito curto.
Quando se corta um caule maduro, a touceira não morre. Continua viva e continua a brotar. Não é preciso plantar de novo nem esperar décadas. Isso não quer dizer que o bambu seja inesgotável nem que se possa usar sem critério, mas permite que as famílias que o cultivam o manejem de uma forma que outros materiais não permitem. Quando visitamos os espaços de trabalho, notamos que há uma ordem na colheita, um respeito pelos caules mais jovens que ainda não estão prontos. Esse cuidado não é acidental.
O momento certo para cortar
Nem todos os caules servem. O bambu demasiado jovem tem paredes finas e pouca densidade; o demasiado velho perde flexibilidade e torna-se frágil. Os artesãos com quem trabalhamos sabem ler o caule: a cor, a textura da superfície, o som que faz quando se bate nele.
O momento do corte também tem importância. A tradição balinesa recomenda cortar em determinadas alturas do ano, quando a concentração de amido no interior do caule é menor. Esse amido é precisamente o que atrai os insetos, por isso reduzi-lo desde o início já faz parte do tratamento. Não é superstição: há uma lógica prática por detrás que os artesãos foram confirmando ao longo do tempo. Nós não somos especialistas nisto, mas prestamos atenção quando nos explicam o processo.
Como se protege contra os insetos
É a pergunta que mais nos fazem. O bambu sem tratamento é vulnerável: o amido que contém atrai determinados insetos que podem deixá-lo oco por dentro sem que se note pelo exterior até ser tarde demais. Por isso o tratamento é uma parte essencial do processo, não um passo opcional.
O método mais habitual que vemos nos espaços de trabalho com que colaboramos é a imersão em água, por vezes combinada com sais naturais, durante um período prolongado. O objetivo é lavar o amido do interior do caule. Depois vem a secagem, que tem de ser lenta e controlada para evitar que o bambu rache. Uma secagem apressada estraga o trabalho anterior. Há oficinas que usam também calor neste processo. Não dizemos que todos os métodos são iguais nem que conseguimos verificar cada passo, mas escolhemos trabalhar com famílias que nos mostram o que fazem e porquê.
O tempo de secagem não se negoceia
Uma das coisas que mais nos custou perceber ao princípio é que neste trabalho há tempos que não se podem comprimir. O bambu tratado precisa de secar ao seu ritmo. Se se forçar o processo, aparecem fissuras, o caule torce-se ou o tratamento não penetrou bem e o problema regressa meses depois, já em casa do cliente.
Isso tem um impacto direto nos nossos prazos. Quando fechamos uma encomenda em Bali, sabemos que há uma parte do tempo que não depende de nós nem dos artesãos: depende do bambu. Às vezes isso gera alguma tensão, sobretudo quando queremos ter algo pronto para uma data específica. Mas aprendemos a respeitar esse tempo. Um caule que não secou bem não melhora com o tempo; pelo contrário. E preferimos esperar a enviar algo que depois dê problemas.
Onde aparece o bambu no que fazemos
O bambu não é o único material com que trabalhamos, mas é um dos que mais presença tem. Aparece em estruturas, em molduras, em peças de arrumação e em alguns elementos decorativos onde a leveza e a firmeza ao mesmo tempo são difíceis de conseguir com outra coisa.
O que mais gostamos no bambu é que não tenta imitar nada. Não finge ser madeira nem metal. Tem a sua própria linguagem visual: os nós, a ligeira variação de tom entre um caule e outro, a forma como envelhece se for tratado com cuidado. Quando chega uma peça de bambu bem feita e bem tratada, nota-se. Não é preciso explicar: a solidez fala por si. E isso, depois de termos visto o processo desde a encosta até ao espaço de trabalho, continua a parecer-nos algo que vale a pena contar.
Obrigado por teres lido até aqui. Se tiveres curiosidade em ver as peças de bambu que temos agora, podes visitar a loja quando quiseres. E se há algo sobre os materiais que trazemos de Bali que gostarias que contássemos, escreve-nos: estas cartas também se constroem com o que a vocês interessa.